DIEGO, O EDUCADOR DO ANO

Ao saudar o professor escolhido como 'Educador do Ano 2015', evento promovido pela Academia Brasileira de Educação, o seu presidente, Carlos Alberto Serpa de Oliveira, disse que estava esperançoso de que o exemplo frutificasse em todo o país. Trata-se de Diego Mahfouz Faria Lima, diretor da Escola Municipal Darcy Ribeiro, de São José do Rio Preto (SP).

Trata-se de um estabelecimento de ensino de 800 alunos, onde se operou uma verdadeira revolução, a partir da chegada de Diego. Antes dominada pela violência, o desrespeito, a presença de drogas e péssimos resultados pedagógicos, a escola acabou passando por um enorme processo de transformação - e isso tudo devido à atuação do professor Diego Mahfouz Faria Lima. Natural da cidade de Paranaíba (Mato Grosso do Sul), ele topou o desafio de assumir a direção da escola-problema. Primeiro mapeou as dificuldades que deixaram o estabelecimento como último colocado num ranking de 300 km de raio. Visitou exaustivamente a comunidade, pediu doações, colocou todo mundo para reformar as salas de aula (muitas delas queimadas por incêndios criminosos), convenceu os professores a participar disso tudo, para alegria do prefeito Waldomiro Lopes, que elogiou, na cerimônia realizada na Casa de Cultura Julieta de Serpa a alma de educador de Diego, seu amor nas relações com os alunos antes revoltosos.

Diego demonstrou grande criatividade e uma enorme capacidade gerencial. Mudou completamente o panorama interno da escola, que assinalava a existência de uma média de 60 suspensões por semana. Tudo isso foi substituído por um diálogo permanente, inclusive com os pais. As famílias passaram a se sentir responsáveis ao lado do Poder Público pela educação dos filhos. Hoje, em São José do Rio Preto não há um só menino de rua, pois todos foram resgatados, com um pormenor: o exemplo do 'Darcy Ribeiro' se estendeu para outras escolas públicas. Na cidade não há mais lugar para a Pedagogia da Violência.

Foi desenvolvida uma trilogia abençoada (Ensino, Ciência e Cultura), com diversos projetos que deram certo, como os de música e teatro, com a intensa presença do alunado. Diego fez nascer a Camerata Jovem Beethoven e surgiram talentos expressivos na música clássica, antes abandonada.

A ciência e a tecnologia foram também valorizadas: as crianças e os adolescentes passaram a se destacar por descobertas incríveis, numa notável e bem sucedida transformação. O segredo disso tudo passou também pelo estilo simples e sério de Diego Mahfouz, que se tornou um exemplo a ser imitado. Reportando-se a um dramático acidente de carro, sofrido há oito anos pelo diretor (formado em Pedagogia), em que escapou milagrosamente da morte, o prefeito declarou que Deus gosta de Diego e do seu estilo. Na verdade, concluiu ele: 'queremos um Diego em cada escola do país'. Uma escolha acertada para o 'Prêmio Fernando de Azevedo' relativo ao ano de 2015.


 

Rio 2065

A proposta de examinar como será a vida, no planeta Terra, especialmente no Rio de Janeiro, no ano de 2065, quando estaremos comemorando os 500 anos da cidade fundada por Estácio de Sá, nasceu de uma conversa com o Acadêmico e jornalista Cícero Sandroni. Preocupados com o futuro da humanidade e em particular com o que se passará com a cultura, entendemos que valeria a pena realizar esse empenho prospectivo, sem adivinhações inconsequentes.

Nossos estudos futurológicos contaram com a colaboração da equipe do Instituto Antares, sob a coordenação da professora Manoela Ferrari, formada pela Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro. Partimos, desde logo, do princípio de que não haverá, em nosso planeta finito, nenhuma possibilidade de crescimento sem limites.

Como se fosse uma plataforma de lançamento, estudamos detidamente o livro '2052 - Uma previsão global para os próximos 40 anos', escrito com muita competência pelo especialista norueguês Jorgen Randers, o mesmo que desenvolveu o notável trabalho intitulado 'Os limites do crescimento', sob encomenda do Clube de Roma, lançado em 1972. Esse trabalho foi trazido ao Brasil pelo professor Heitor Gurgulino de Souza.

 Jorgen Randers, especialista em questões climáticas, planejamento de cenários e dinâmica dos sistemas, tenta vislumbrar como será a nossa vida daqui a 40 anos - e para isso contou com a colaboração de 40 autores.  

 São pensadores que se debruçaram sobre áreas como economia global e recursos.  As previsões foram feitas a partir de modelos de computador, mas têm uma característica eminentemente humana.  Prevê-se, por exemplo, que em 2052 a concentração de CO2 na atmosfera continuará aumentando e a temperatura em geral crescerá mais de 20 C.  Mesmo assim produziremos a comida de que necessitaremos, embora seja possível a existência de baques em relação ao milho nos Estados Unidos e ao trigo na Índia.

Disse Randers: 'Os jovens pagarão caro pelas pensões dos seus pais, além de enfrentar desemprego alto e habitação cara. Isso poderá provocar uma grande revolta.'

  Ele criticou os excessos praticados: 'Em alguns casos, haverá colapsos localizados antes de 2052, como a provável perda de recifes de coral e do atum.' Mas garante que a partir de 2030 a humanidade começará a diminuir as emissões globais. A insustentabilidade do nosso planeta finito estará dentro de limites perfeitamente suportáveis.

 No livro, Jorgen Randers afirma que os Brics continuarão a crescer, mas o maior fenômeno de expansão será o da China, 'porque é capaz de agir'.  Randers acha que os Estados Unidos entrarão em clima de estagnação.  A população mundial atingirá um pico de 8,1 bilhões, em 2040, e depois diminuirá.  A pesquisa apresenta um dado aterrador: em 2052, o mundo terá mais de 2,1 bilhões de pobres.

O estudioso norueguês prevê um significativo aumento dos investimentos sociais nas próximas décadas, 'mesmo que seja em resposta a crises. Isso não impedirá que haja muito sofrimento, principalmente devido a mudanças climáticas desenfreadas.' Consequência da existência de uma população mais urbana e menos inclinada a proteger a Natureza.

Há o natural receio de que, em 2080, as temperaturas terão aumentado 2,80 C, nível suficiente para iniciar um aquecimento global autossustentado, o que não é nem um pouco desejável, segundo nos disse o professor Heitor Gurgulino de Sousa, que foi reitor da Universidade da ONU, em Tóquio, e acompanha de perto os estudos realizados pelo Clube de Roma.  Segundo ele, esse tipo de controle é desejável, mas para isso se torna indispensável que o mundo acorde, sobretudo nas escolas de todos os níveis, para a necessidade imperiosa de uma vigorosa campanha de conscientização ecológica.                      


 

NOSSA RIQUEZA É O OTIMISMO

Adolpho Bloch foi uma figura controvertida.  Eram dele os maiores feitos da sua empresa, mas também algumas indelicadezas que o faziam temido por seus funcionários, cerca de 5 mil no auge da TV Manchete (década de 80).

  Veio para o  Brasil em 1922 com pais e irmãos, todos fugidos das perseguições que eram comuns na então União Soviética.  Chegou a assistir a pogroms na sua cidade natal (Jitomir).  Daí a sua aversão a injustiças, como costumava proclamar.  Se cometesse alguma, pouco depois pedia desculpas.  Tinha uma forma original de se penitenciar.  Enviava um queijo francês ou uma garrafa de vinho de boa qualidade para a 'vítima'.

  De uma feita, na gráfica da rua Frei Caneca, depois do almoço, flagrou um operário dormindo entre as máquinas.  Acordou o indigitado aos berros e com muitos palavrões (ele sabia todos).  O infeliz, depois do susto, partiu pra cima do patrão e deu-lhe um soco que fraturou o enorme nariz.  Na volta do Hospital Souza Aguiar, onde foi medicado, perguntaram ao Bloch iracundo se ele demitiria o funcionário.  Já refeito da raiva costumeira, disse que não: 'Ele não tem culpa.  Fui grosso com ele.  Vamos esquecer o assunto.'

  Em 1967, depois da Guerra dos Seis Dias, estive com Adolpho no Estado de Israel.  Visita inesquecível.  Fomos recebidos no Instituto Weizmann de Ciências pelo seu então presidente, o cientista Albert Sabin, benfeitor da humanidade.  Falaram horas sobre meios e modos de ajudar o Brasil a se livrar dos riscos da poliomielite.  Sem nenhum interesse financeiro em jogo.

Adolpho amava o Brasil.  Amigo de artistas e  políticos, notabilizou-se pela fraterna ligação com o ex-presidente Juscelino, de quem nada recebeu.  Em virtude da cobertura dada a JK, sobretudo após a sua morte, foi  muitas vezes ameaçado de retaliação.  Sua resposta era pronta:  'Podem levar tudo com eles.  Só vim da Rússia com um pilão, o resto foi conquistado.'

Na década de 40, trabalhou na  Rio Gráfica Editora, tornando-se grande amigo de Roberto Marinho.  Depois, retribuiu às gentilezas recebidas, montando a gráfica da família Marinho.  Tinha uma visão peculiar do que era patriotismo.  Queria construir uma escola em cada  Estado brasileiro.  Fez as duas primeiras, Joseph Bloch em Parada de Lucas e Ginda Bloch em Teresópolis, esta com  um lindo projeto arquitetônico de Oscar Niemeyer.  Doou  ambas ao Estado.  Orgulhava-se de ver os nomes dos seus pais nas camisetas dos alunos.  'Há coisa melhor?' - costumava perguntar após cada visita.

Sem ter filhos, gostava de ser chamado de Titio.

Não deixava que suas revistas se caracterizassem por críticas ferozes a quem quer que fosse.  Adotou o mesmo procedimento nas suas televisões e emissoras de rádio.  Contra-atacava  com uma frase que ficou forte como marca da sua personalidade: 'Temos que ajudar o Brasil a crescer.  Nossa riqueza é o otimismo.' 

Adolpho Bloch morreu em novembro de  1995, aos 87 anos. 


 

É PRECISO AMPLIAR A LITERATURA

A iniciativa foi da Deputada Maria do Rosário (PT/RS): a realização de uma audiência pública para debater a situação da leitura e do ensino de literatura na educação básica, particularmente no ensino médio. Assim, especialistas de diversos setores se reuniram no Anexo II da Câmara dos Deputados. Sob a inspiração da Comissão de Educação, com o apoio também da Dep. Margarida Salomão (PT/MG), foram apresentadas e discutidas sugestões por parte do escritor Luís Augusto Fischer, de Zoara Failla (Instituto Pró-Livro), de Germana Maria Araújo Sales (ABRALIC), de Adelaide Ramos e Côrte (Conselho Federal de Biblioteconomia), de Volnei Canônica (Ministério da Cultura), de Ricardo Magalhães Cardozo (MEC) e do autor destas linhas, representante da Academia Brasileira de Letras. Tudo com base em texto preliminar, elaborado pela Dep. Maria do Rosário, em que ela afirma lamentar a redução do número de leitores no Brasil e o Enem tem importância crescente: 'Estudos recentes apontam uma diminuição gradual das questões de literatura nos últimos anos (com exceção de 2012). E há pouca presença em história da literatura brasileira, assim como a concentração em determinados períodos históricos e movimentos literários.'

No momento que o Brasil discute uma Base Nacional Comum Curricular, a Comissão de Educação da Câmara dos Deputados decide promover debates sobre o tema, o que é bastante auspicioso.

O escritor gaúcho Luís Augusto Fischer condenou a concentração de questões em determinados autores e sugere aproveitar a discussão em torno da BNC para elaborar propostas de renovação. Além disso, propôs leituras renovadas no Enem.

Zoara Failla, do Instituto Pró-Livro, mostrou que houve uma redução de 7 milhões de leitores em cinco anos corridos. Por outro lado, as mulheres assumiram a liderança dos índices de leitura.

A especialista Germana Araújo Sales reclamou da redução do espaço da literatura no Enem e Volnei Canônica, do Ministério da Cultura, entende que o professor é o principal vetor de acesso ao livro. Pedimos a palavra para argumentar que no Japão essa responsabilidade também é dos pais: 'Toda noite, o pai ou a mãe lê o capítulo de um livro para o filho, entronizando nele o gosto pela leitura.'

Ricardo Magalhães Cardozo, da Secretaria de Educação Básica do MEC, entende que a atual discussão sobre a BNC é uma excelente oportunidade para corrigir essas distorções. O mesmo podendo ser dito sobre o Sistema Nacional de Educação, que deve ser muito valorizado.

Há necessidade de maior entendimento com o Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacional (Inep), ao qual incumbe a montagem das questões do Enem. Não deve se deixar levar pelas divergências entre gramáticos e linguistas. Assim estará mais disponível para valorizar a literatura, como é o desejo de todos.

Fizemos questão de externar nossos pontos de vista. Primeiro revelando que nos falta uma clara definição sobre o que se entende por Política Nacional de Educação. Colocamos a Academia Brasileira de Letras à disposição dos interessados para transmitir a sua experiência sobre projetos de defesa da língua portuguesa e valorização da cultura nacional, conforme, aliás, consta do artigo 1o do seu pétreo Estatuto, assinado por Machado de Assis.


 

LISBOA, ABERTURA PARA O FUTURO

         Esta foi a nossa segunda visita à Universidade Aberta de Lisboa.  A primeira foi há 28 anos, quando a instituição, dirigida pelo então reitor Armando Trindade, tinha apenas dois anos de vida e surgia como esperança, no panorama da educação portuguesa.  Hoje, com o reitor Paulo Dias, tem cerca de 7 mil alunos de várias partes do mundo, inclusive brasileiros, com cursos também de mestrado e doutorado.

         Convidado pelo professor José Fontes, fiz uma conferência sobre a Educação à Distância no Brasil ('O acesso para todos') e fiquei impressionado com o interesse dos portugueses pela nossa experiência nessa modalidade, que hoje abriga mais de 1 milhão de estudantes.  Com a coordenação da professora Darlinda Moreira, diretora da instituição, depois da palestra respondi a uma série de pertinentes indagações sobre EAD, mostrando o seu indiscutível avanço.

       O certo é que em Portugal, como no Brasil, as inquietações dos mestres são assemelhadas: como garantir a qualidade no ensino; de que forma são recrutados os professores; quais os cursos que  despertam maior interesse.

       Sob esse último aspecto, em Portugal as preferências recaem sobre as ofertas em Ciências Sociais, Gestão e Educação, fazendo muito sucesso a licenciatura, o mestrado e  o doutorado no setor que envolve a Pedagogia.  Há alunos brasileiros, de Florianópolis (SC) e Londrina (PR), por exemplo, aperfeiçoando os seus conhecimentos na  Universidade Aberta, mas com uma queixa recorrente: O Brasil ainda não reconhece devidamente esses estudos.  Nossas autoridades exercitam uma estranha desconfiança, certamente porque ainda não têm as necessárias garantias da seriedade do empreendimento.  É uma questão de tempo e de entendimentos bilaterais que não devem  tardar.

      Provocado pelo amigo António Valdemar, da Academia das Ciências de Lisboa, entendi  que deveria falar  um pouco sobre o sucesso da iniciativa da Nuvem de Livros no Brasil e  a possibilidade de estar também em Portugal.  É claro que deveria fazer a ressalva dos números de um país e de outro.  Hoje, a  NL conta com 2,5 milhões de assinaturas, a preços simbólicos, podendo acessar cerca de 30 mil livros de excelente qualidade, abrangendo obras de autores brasileiros e portugueses, escolhidos pelo curador Antônio Torres.  Torna-se relativamente fácil alcançar Portugal - e os dirigentes da UAL manifestaram vivo interesse pelo projeto.

        O Brasil tem hoje mais de 50 milhões de alunos frequentando nossas escolas, em todos os níveis.  O ensino cresceu muito, nos últimos anos, sobretudo no nível fundamental.  Mas falhamos na busca da qualidade, em boa parte devido à precariedade dos cursos de formação de professores.  Temos quase 200 mil escolas de educação básica.  Cerca de 60% delas não têm sequer uma biblioteca (15 milhões de alunos desassistidos), embora haja uma lei preconizando que, a partir de 2020, todas as  escolas, públicas e particulares, serão obrigadas a  ter bibliotecas, com livros na proporção de pelo menos um para cada aluno registrado.  Será isso factível?

      Bibliotecas, ao lado de bons laboratórios, são exigências do futuro imediato, entre nós um pouco sacrificado pelos cortes orçamentários do Ministério da Educação(cerca de 9,4 bilhões de reais só em 2015).

   Ainda assim, nossa visão é otimista, com ou sem os recursos do pré-sal.  O emprego em massa da educação à distância de qualidade pode ser uma arma poderosa de crescimento.



 

O IDEALISMO DE DONA ZOÉ

Um dos prazeres da minha vida era receber os telefonemas de Dona Zoé Noronha Chagas Freitas. Educadora por formação, leitora contumaz das grandes revistas francesas, gostava de dividir comigo os textos relativos à educação, que ela garimpava com um desvelo especial. Não se conformava com os poucos cuidados devotados à nossa educação e era com muita energia que criticava as ações oficiais, em geral insuficientes para garantir a qualidade indispensável. Só me restava concordar com os seus pontos de vista, pois eram pertinentes.

Dona Zoé, como carinhosamente nós a chamávamos, colocou-se sempre ao lado dos professores, nas suas justas reivindicações. Esposa do governador Chagas Freitas, que ela carinhosamente chamava de 'Pádua', um dia me pegou na Sala Cecília Meireles, em plena greve do magistério oficial, e me deu um aperto em regra: 'Você é o Secretário de Educação e Cultura e precisa ser mais enérgico para dar o aumento dos professores.' Humildemente, pedi que ela conversasse também com o seu marido, governador do Estado, que tinha o poder e a caneta na mão. Ela prometeu falar com ele. E assim fez. Os mestres do Rio de Janeiro receberam aumentos de até 1.000%. Quem sabe, muito por influência dela?

Dona Zoé era uma pessoa de cultura. Frequentava os cursos coordenados por Ruth Niskier no Centro Cultural Desembargador Aloysio Maria Teixeira. Era muito assídua. E sempre lembrava os extraordinários trabalhos de recuperação feitos sob sua liderança no Palácio Laranjeiras e na Catedral da Sé. Mas reservava um carinho muito grande para as ações desenvolvidas na Sociedade Pestalozzi, onde acompanhou a incrível performance da educadora Helena Antipoff. São nomes inscritos para sempre no pantheon da educação especial brasileira.

Outra atividade em que se destacou o empenho de Dona Zoé foi na criação e desenvolvimento da Escola de Arte do Brasil. Adorava trabalhar ao lado do pintor Augusto Rodrigues, expandindo vocações de crianças que depois se tornaram artistas afamados. Era natural, pois, que tivesse uma rica pinacoteca, em sua residência, com alguns dos melhores pintores brasileiros. O marido acompanhava o seu gosto pela nossa arte.

Dona Zoé faleceu aos 95 anos de idade, cercada pelo carinho e a saudade antecipada de amigos, filhos, netos, bisnetos e o tataraneto Antônio. Foi uma figura especial da cultura brasileira. Era constante a sua presença nas temporadas de música, ópera e balé do Teatro Municipal. Não deixava vazio o seu camarote de primeira dama. Quando não podia ir, por qualquer razão, mandava convocar alunos das escolas públicas do Estado - e assim todos ganhavam.

Ela certamente fará falta aos seus familiares e incontáveis amigos. Sobretudo pela paixão com que se devotou ao binômio educação-cultura, compreendendo o seu relevo para o processo de desenvolvimento do Brasil. Dou razão ao ex-Secretário Waldir Garcia: devemos manifestar o respeito pela sua memória e esperar que o Governo do Estado faça o mesmo, quem sabe, dando o seu honrado nome a uma das nossas próximas escolas. Será um ato de pura justiça.


 

SEGREDOS DO SUCESSO - II

                                                                                

            Volto ao livro 'Segredos do Sucesso' (Editora Leader), que acaba de ser lançado por Cristiano Lagôas, um especialista em Alta Gestão.  Em meu depoimento, confesso que, ao deixar a Manchete, com 56 anos de idade, prometi a mim mesmo que dali em diante só faria o que gostasse.  Nada obrigado.  Assim, ao lado da família, que amo, dirijo  a Consultor - Assessoria de Planejamento  Ltda. e o Instituto Antares de  Cultura, que é uma sociedade civil sem fins lucrativos.  Sem falar no trabalho voluntário (sem remuneração) na presidência do Centro de Integração Empresa-Escola/o CIEE do Rio de Janeiro.  Desde que lá entrei, há cinco anos, consegui aumentar o número de estagiários e aprendizes de 20 para 37 mil, o que nos enche de alegria.  Temos uma bela equipe, comandada pelo amigo Paulo Pimenta.  Agora mesmo, compramos uma sede nova, na rua de Santana nº 165, para nela comemorar os nossos 50 anos de  existência.

        O que me deixa feliz é a realização com êxito de algum evento ou o sucesso na vida dos filhos Celso, Andréia e Sandra, além das seis netas maravilhosas (Giovanna, Dora, Gabriela, Fernanda, Bruna e Paula).

        O que não tolero? Falsidade.  Frustração em mim dói apenas no começo.  Profissionalmente, gosto da expressão com que fui homenageado pelo saudoso acadêmico R. Magalhães Jr.:  'Arnaldo é um ensaísta da educação.'  Já o também acadêmico Carlos Heitor Cony disse um dia que sou 'um grande executivo cultural.'

           Penso muito antes de tomar decisões importantes.  Pude inaugurar 88 escolas públicas, entre os anos de 79 e 83, o que considero um feito notável.  Por enquanto, me recuso a pensar na velhice.  Tenho a mente focada em projetos e inovações, como hoje em dia a Nuvem de Livros', pela qual tenho o maior entusiasmo.  Outra atividade que me enche  de encantamento é a realização de conferências, dentro e fora da Academia Brasileira de Letras, onde estou há mais de 30 anos.  Fui seu presidente e lá deixei minhas impressões digitais, em muitas e definitivas realizações.

            Ninguém pode fazer sucesso, na vida, se não tiver estudado muito e se preparado de modo adequado.  Também é essencial entender que a aprendizagem é para toda a vida, como se afirma na Unesco.  Os conhecimentos evoluem de minuto a minuto e devemos estar sempre atentos a isso.  Quem acha que sabe tudo, na sociedade do conhecimento, não sabe é nada.

           Com a experiência de estar presidindo o CIEE/RJ posso afirmar que o recrutamento desses jovens estagiários e aprendizes é sempre feito cuidadosamente, reconhecendo nos candidatos o seu potencial em termos de criatividade, apetite funcional, modéstia e capacidade técnica.  Um bom especialista em avaliação (temos vários deles que são ótimos) reconhecerá com facilidade essas qualidades nos candidatos.  Por  fim, posso afirmar que a devoção ao estudo é uma qualidade indispensável, ao lado da solidariedade e  do espírito de liderança.  Sem isso, tudo fica mais  difícil.

 

 

 

 

A IMPORTÂNCIA DA CONTINUIDADE

       

O primeiro governador do Rio de Janeiro, depois da fusão da Guanabara com o antigo Estado do Rio, foi o Almirante Faria Lima. Ele fez uma feliz escolha, ao entregar a Secretaria à professora Myrthes De Luca Wenzel, de assinalados serviços prestados ao setor, especialmente como diretora do Centro Educacional de Niterói. Ficou quatro anos na direção da SEEC, a ela se devendo iniciativas como o Laboratório de Currículos e o Centro de Tecnologias Educacionais.

Em 1979 o comando do Rio de Janeiro passou para o Governador Chagas Freitas. Ao ser nomeado para o lugar de Myrthes Wenzel, dele recebi a recomendação: 'Não saia mudando tudo. O que estiver bem, mantenha.' Sabendo isso, dona Myrthes, na sede da Manchete, me disse no ouvido: 'Graças a Deus é você o meu substituto.' Foi o que fiz, nos quatro anos seguintes. Dei força ao Laboratório de Currículos, entregue à competência de Fátima Cunha Ferreira Pinto, e prestigiei ao máximo o CTE, que passou a ser dirigido por Maria Eugênia Stein. Não mexi nas respectivas estruturas, mas dei um toque pessoal aos seus trabalhos, como a elaboração dos Cadernos Pedagógicos e a produção de 66 filmes didáticos, distribuídos às escolas públicas. A continuidade permitiu isso.

Mais recentemente, tivemos o exemplo de Wilson Risolia. Mesmo não sendo um educador de ofício (é economista), ficou quatro anos e dois meses no comando do sistema público de ensino do Rio de Janeiro. Nesse período, verdadeiramente inusitado (a média tem sido de um Secretário por ano), conseguiu melhorar a posição do Rio de Janeiro nos exames oficiais, saindo lá de baixo para o meio da tabela, na educação básica. Em entrevista ao jornal O Globo, Risolia atribuiu o sucesso da sua tarefa ao apoio de diretores e professores, aos quais conquistou no seu período de direção: 'Se tivesse havido solução de continuidade, como é hábito, nada disso teria sido alcançado.'

O exemplo vale para todos os Estados e até para o governo federal. Ao sabor de discutíveis conveniências políticas, mexe-se em tudo, começando do zero cada mandato. Não há inteligência nesse processo.

Para resolver (ou atenuar) os graves problemas da educação é preciso implantar políticas de longo prazo. Veja-se o caso do magistério. Se nem o mínimo estabelecido em lei é respeitado em boa parcela dos Estados e municípios, mesmo com a proclamada injeção de recursos provenientes da exploração do pré-sal (já são 700 mil barris diários), as possiblidades de progresso, no futuro, são precárias.

As regiões em que a educação é tratada como prioridade, obviamente, são as que demonstram uma boa capacidade de reação e apresentam performances destacadas nos exames oficiais. Não pode ser outra a razão pela qual Minas Gerais e o Ceará têm se mostrado mais competentes, na oferta de serviços pedagógicos aos seus alunos. Há incentivos ao professorado e a ampliação do tempo de aulas, na direção da sonhada integralidade.

 

 

ACADEMIA CONQUISTA ZUENIR

Não é de hoje que a Academia Brasileira de Letras e o escritor e jornalista Zuenir Ventura se namoram. Pronto, deu casamento. Ele foi eleito praticamente por unanimidade e todos serão felizes para sempre.

Zuenir é um mestre na arte jornalística, tendo servido de modelo para muitos jovens que ingressaram na fascinante carreira. Aliás, o mesmo aconteceu na ESDI(Escola Superior de Desenho Industrial), da qual Mestre Zu foi professor durante muitos anos. Sempre muito apreciado por seus alunos.

Com passagens pelo Jornal do Brasil, revista Veja, Visão e Fatos & Fotos (quando convivemos por um bom tempo) e agora em O Globo, Zuenir é uma figura amável, competente, de um texto encantador. Quando produziu uma série sobre Chico Mendes, indo ao local de sua moradia, na selva amazônica, tornou-se imperiosa a necessidade de transformar as reportagens impactantes no livro 'Chico Mendes - Crime e castigo', de grande sucesso, o mesmo que marcou outras obras de destaque, como 'Cidade partida' e '1968 - O ano que não terminou'. É um autor bem sucedido.

Natural de Além Paraíba (MG), com algum tempo de estudos em Nova Friburgo (Colégio da Fundação Getúlio Vargas), Zuenir é muito aplicado em tudo o que faz, estimulado por um sólido casamento com a colega de profissão, Mary A. Ventura. Estudioso do fenômeno da inveja, escreveu um livro sobre a própria, com o título de 'Mal Secreto', admitindo por princípio que ela existe. Mas procura se afastar dos seus malefícios, curtindo o cotidiano, em que há um tempo especial para a neta Alice, muitas vezes citada em suas crônicas pela inteligência e presença de espírito.

Uma conversa com ele é sempre muito animada, sobretudo quando entra em pormenores das duas de suas maiores reportagens: a do Chico Mendes, quando trouxe para o Rio o menino Genésio dos Santos, testemunha que permitiu levar os assassinos para a cadeia, e a de Vigário Geral, quando a favela estava dominada por uma facção. Conviveu uns tempos com essa realidade, para 'sentir' de fato o que aquilo tudo representava. Daí o sucesso das empreitadas.

Amante da liberdade, da justiça social e da democracia, é reconhecido pela firmeza de suas posições. Não transige com a mentira. Fingimento só na ficção. Por isso, se autoproclama aficionado de Euclides da Cunha, que para ele é o nosso maior jornalista literário, com a obra-prima de 'Os Sertões'.

Zuenir está atento ao progresso da inclusão digital, como não poderia deixar de ser, mas chama a atenção para os cuidados devidos: 'A Internet pratica um jornalismo discutível. Suas informações não são checadas e isso podem levar à prática de lesões ao princípio da verdade.' Sábias palavras.

 

A VISÃO HERÓICA DE CHOPIN

Sempre mantive no meu espírito as ressonâncias da obra do pianista polonês Fréderic Chopin.  Com a morte prematura do escritor Luiz Paulo Horta, que foi crítico musical de O Globo, o sentimento de apreço pelo autor da 'Heróica' tornou-se mais forte.  Horta  mantinha no mesmo plano sua  admiração, também como pianista, por  Bach, Bethoven, Brams, Liszt e Chopin.  Uma vez, em sua casa, desafiei-o a tocar uma polonaise - e ele o fez de modo brilhante.

Sem  ser pianista, fui tocado pela vida de Chopin quando assisti, aos 10 anos, em São Paulo, no cinema Paramout, ao filme 'À noite sonhamos', de Charles Vidor.  Trata-se de uma biografia, naturalmente romanceada, de um dos gênios da música universal.  Ele viveu na Polônia até os 20 anos de idade, mas devido à invasão da Rússia ao seu país fugiu para a França, onde viveu até os 39 anos de idade.  Lá ele compôs algumas das suas obras-primas e se apresentou em inúmeros concertos, enquanto a saúde permitiu.  Era frágil e consta que teria tuberculose, mas também se especula que suas seguidas crises de alucinações eram devidas a uma renitente epilepsia.

 Durante dez anos seguidos, inspirou-se no turbulento romance que manteve com a escritora Aurora Dudevant, conhecida como George Sand.  Isso é muito explorado no filme citado, especialmente a passagem pela Espanha.  O casal foi  para Majorca, para  fugir à notoriedade das capitais, mas ele já se encontrava debilitado.  O clima úmido e chuvoso da região favoreceu o agravamento da sua tuberculose.  Uma passagem do filme tornou-se inesquecível: ele toca ardorosamente uma peça e, de repente, uma gota de sangue mancha o teclado de marfim do seu Pleyel.  Era o sinal de que os pulmões não estavam agüentando  aquela situação.

Chopin viveu de 1810 a 1849.  Em suas memórias, George Sand cita a viagem feita com o compositor à  Espanha, em 1838, hospedados num monastério, 'cheio de terrores e incidentes', muitos dos quais devidos  às suas desordens psiquiátricas.  Tinha estranhas visões, como a que impediu que prosseguisse num concerto que estava realizando na Inglaterra, em 1848.  Foi muito criticado porque parou de tocar e deixou o palco, frustrando o público londrino.

 Pilar do romantismo na música erudita do século XIX, apesar das crises, compôs  mazurcas, polcas, valsas e  polonaises, nessas  últimas tentando mostrar a sua paixão nacionalista pelo solo pátrio.  Ganhou a reputação de 'segundo Mozart'.  Ao morrer foi enterrado  na França, mas o seu coração, por inspiração da irmã  mais velha, foi retirado do seu corpo e colocado numa urna de cristal selada, lacrado,  até hoje  guardado  dentro de um  pilar da Igreja de Santa Cruz, na Polônia, milagrosamente  salva da destruição nazista.

O corpo ficou no Cemitério Père Lachaise.  Diante de três mil pessoas, desceu à sepultura com o Réquiem, de Mozart, e mais a Marcha Funeral da Sonata Opus 35.  Alguns dos seus amigos trouxeram punhados de terra da Polônia e colocaram junto ao túmulo, para que ele  'sentisse' eternamente  a presença das suas origens.

 

IVAN JUNQUEIRA E A POESIA MODERNA

        Poeta, tradutor e crítico, posso  asseverar que Ivan Junqueira, falecido aos 79 anos de idade, fará muita falta à Academia Brasileira de Letras.  Não só pela qualidade da sua produção literária, mas também pela preciosa característica da Casa de Machado de Assis, que é do convívio pleno.  Ele era de uma impressionante assiduidade, até mesmo nos momentos  em que não queria se render à precariedade da sua saúde.

            Quando perguntei à jornalista Cecília Costa, depois de 29 anos de companhia, qual a impressão mais forte que Ivan lhe deixara, a sua resposta emocionada foi pronta, testemunhada pelo presidente Geraldo Holanda Cavalcanti: 'Foi a paixão pelos amigos.  Ele não tinha meias amizades.'

             Foi acadêmico com força total, nos últimos 14 anos, honrando a cadeira nº 37, onde substituiu o poeta João Cabral de Melo Neto.  Produziu 13 livros, alguns deles premiados, e todos com muitas edições, como 'T.S.Eliot - Poesia' e a clássica e difícil tradução de 'As flores do mal', de Charles Baudelaire, cuja obra de 1857 se considera a fonte da poesia moderna.  Apreciava no autor francês a fidelidade à métrica tradicional e a visão mística do universo, onde descobriu misteriosas  'correspondências'.  Tudo isso tornou ainda mais desafiante a sua tradução, fazendo do trabalho de Ivan algo único na literatura universal.

           Como ser humano, Ivan Junqueira era tido como sisudo, fechado, de permanente mau humor.  Aos  íntimos não deixava essa impressão porque tinha um humor aguçado.  Foi muito feliz o amigo Murilo Melo Filho quando lhe entregou o prefácio do excelente livro 'Senhores da palavra', recém lançado, em que estão registrados cerca de 600 episódios, 'que ilustram a verve  e o pendor humorístico de inúmeros acadêmicos, revelando assim para o público que esses  austeros  'senhores da da palavra', também sabem narrar e são mais humanos  do que se imagina.'

       Na biografia de Ivan consta, com destaque, o período em que foi um dedicado e competente presidente da Academia Brasileira de Letras.  Nos anos de 2004 e 2005 revelou-se como administrador, a ele se devendo uma ativação inusitada das conferências, além de uma alentada programação de novos livros, dando vida intensa às nossas diversas coleções.  Lembrou, na época o estilo de fazer dos seus tempos de Biblioteca Nacional quando editou a  insuperável revista 'Poesia Sempre', entre 1993 e 2002.  Era uma referência como publicação de um apurado gosto literário, além da excelência do seu aspecto gráfico.

        Ivan Junqueira será sempre lembrado pela sua figura profundamente humana, mas também pelos livros que deixou e os próximos que se encontram nas gráficas.  Vem aí uma nova edição do 'Testamento de  pasárgada', antologia crítica da obra de  Manuel Bandeira, 'Reflexos do solo posto', críticas e análises feitas nos últimos anos e o inédito de poesia intitulado 'Essa música', classificado pelo acadêmico Alfredo Bosi como o 'zênite da sua trajetória poética'.  O seu nome será para sempre lembrado.


 

O PREJUÍZO DO ENEM

Criado há 15 anos, o Exame Nacional de Ensino Médio consolidou-se como um dos índices de avaliação da educação brasileira e principal meio de acesso às universidades públicas do Brasil. Atualmente, apenas duas das 10 principais instituições federais ainda não adotaram a prova para ingresso por meio do Sistema de Seleção Unificada (Sisu) - situação que, seguindo a tendência atual, deve atingir 100% de adesão nos próximos anos.

Em 2004, o nº de inscritos bateu todos os recordes: quase 10 milhões.  Mas a edição de 2013 do Exame registrou um número recorde de candidatos ausentes.  Foram mais de 2 milhões ou  29% dos 7,1 milhões de inscritos, segundo dados divulgados pelo Ministério da Educação (MEC). Com base no custo aproximado por inscrito, o prejuízo com operações logísticas e de impressão de provas poderia ter chegado à casa dos R$103 milhões de reais. O prejuízo, no entanto, está estimado em R$ 60 milhões, pois as redações desses faltosos não serão corrigidas, o que reduz o gasto. Mesmo assim, os  números são preocupantes.

 É urgente fazer um trabalho de conscientização. A taxa de abstenção cresceu em relação a 2012, quando 1,6 milhão de inscritos (27,9%) faltaram. Em 2011, foram 26,4%.   Cumpre ressaltar que, nesta edição do Enem, 70% dos inscritos não pagaram as taxas por serem oriundos de escolas públicas ou por terem solicitado isenção por carência. Os demais 30% pagaram o equivalente a R$ 35,00, mas também receberam subsídio governamental superior a R$ 17 milhões (R$ 10,00 por inscrição, já que o valor real da taxa é de R$ 45).

Diante dos prejuízos, o Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais (Inep) quer saber o motivo das faltas. É óbvio que nesse percentual há uma minoria que perdeu as provas por motivos legítimos, francamente justificáveis. Mas e os demais: faltaram por irresponsabilidade? Ou não compreendem o que seja, de fato, o ENEM e que este consome expressivo volume de recursos públicos?

 Sanções para punir os faltosos estão sendo estudadas. Alunos que se inscrevem em várias edições seguidas e não comparecem devem ser punidos. Pode ser a cobrança da taxa em dobro ou proibição de participar das edições futuras. É preciso identificar as razões para o alto índice de abstenções, a fim de evitar gastos públicos desnecessários até o início das inscrições da próxima edição do Enem, em 2014.

 Fala-se muito em gastos com a educação, expressão que deve ser condenada. Gasto é sinônimo de desperdício. Não basta cobrarmos eficiência dos governantes. O povo também precisa participar ativamente da dinâmica de utilização dos recursos públicos, evitando jogar pelo ralo as já minguadas verbas da educação brasileira.

 

ENSINO TÉCNICO GANHA FORÇA

 

Nossa educação é cheia de altos e baixos. Mais baixos do que altos. Agora mesmo, descobre-se que muitas escolas de ensino fundamental, especialmente no interior, simplesmente não funcionam, embora estejam cadastradas como em plena operação. E tantas outras trabalham em circunstâncias precaríssimas. É assim que vamos melhorar a qualidade do ensino?

A alegria da presidência da República está concentrada no ensino técnico. No dia mesmo em que se comemorava, em Belém do Pará, a inscrição de mais de 6,8 milhões de alunos no Pronatec, tivemos o ensejo de conversar, no Rio de Janeiro, com o professor Luiz Cláudio Costa, secretário-executivo do MEC, que viera prestigiar a entrega do título do Educador do Ano ao professor Geraldo Amintas, de Minas Gerais. Foi numa solenidade realizada pela Academia Brasileira de Educação, presidida pelo professor Carlos Alberto Serpa de Oliveira.

Na mesma ocasião, do papo fez parte uma figura mítica da educação brasileira, o professor Roberto Boclin, que durante 20 anos presidiu o Senai/Rio de Janeiro. Ele recordou a importância de uma Deliberação do Conselho Estadual de Educação do Rio de Janeiro, na década de 80, quando foram criados os cursos pós-secundários, de início numa parceria da Escola Estadual Henrique Lage e da empresa Verolme, que contratou os primeiros 24 profissionais dentro do novo modelo.

Segundo o professor Boclin, o Senai soube se aproveitar da inovação e criou 20 cursos que estão em funcionamento até hoje. Segundo sua expressão, "agora que o Pronatec é uma realidade, prestigiada pelo governo, devemos aproveitar todos esses elementos para valorizar a educação técnica e chegar ao final do ano, quem sabe, com 10 milhões de alunos. Existe essa clara possibilidade."

Isto sem se falar nas imensas potencialidades da Qualificação Profissional, onde cabem os mais variados cursos, com cargas horárias diversificadas, para atender às grandes necessidades do nosso mercado de trabalho. Até a Nuvem de Livros está organizando esses cursos, a serem dados via web, em todo o Brasil. Terá a parceria, na distribuição dos certificados, do prestigiado CIEE/RJ, que comemora 50 anos de existência.

O Pronatec já existe em 3,8 mil municípios brasileiros, com uma perspectiva de chegar rapidamente a 4,2 municípios. Tem uma característica marcante: os seus alunos são basicamente de renda baixa e na faixa etária de 14 a 29 anos de idade, com predomínio na região Sudeste. É uma política pública que está dando certo, contando com o apoio de Estados e Municípios, seguindo uma inteligente estratégia de marketing do Palácio do Planalto. Pode-se afirmar que é a maior reforma da educação profissional já feita em nosso país e isso nos enche de alegria. Resta, apenas, cuidar para que a qualidade da parceria público-privada esteja à altura das necessidades nacionais.

 

GOL CONTRA

 

              Tínhamos tudo para caminhar serenamente, em nosso país, na implantação do Acordo Ortográfico de Unificação da Língua Portuguesa.  Ele foi aceito por todas as camadas da nossa população, mas no último minuto, quando o jogo parecia ganho, o Governo fez um gol contra, adiando o início para 2016, de forma incompreensível para os brasileiros.

             Embora parecesse pacífica a implementação do Acordo Ortográfico de Unificação da Língua Portuguesa, na sua versão de 1990, a comunidade lusófona reagiu de maneira diferente.  O Brasil aderiu com entusiasmo a  essa ideia de

simplificação.  A partir de 2013 todos os seus instrumentos de comunicação, como jornais, revistas, livros e emissoras de rádio e televisão obedecerão aos ditames do Acordo, sacramentado pelo ex-presidente Lula, em 2008, numa simpática cerimônia, simbolicamente realizada na sede da Academia Brasileira de Letras

               O mesmo, infelizmente, não está ocorrendo em Portugal e nas nações luso-africanas.  Há fortes reações, com argumentos inaceitáveis: o Brasil estaria exercendo uma forma de neocolonialismo, querendo impor a sua vontade cultural.  Alguns jornais portugueses, como Correio da Manhã, Jornal de Notícias, Público, i, Diário Econômico e Jornal de Negócios, além da revista Sábado, desrespeitam o Acordo e agem como se estivessem com a corda no pescoço.  Não existe o consenso social mínimo em torno do assunto.

             Um bom número de intelectuais protesta contra o que eles classificam como   'empobrecimento da língua portuguesa'.  A Faculdade de Letras de Lisboa está na linha do que se pode classificar como desacordo.  O jornal 'Público' anuncia com entusiasmo que o governo brasileiro estaria para dar uma volta e conceder um prazo de mais seis anos para tornar obrigatórios todos os  postulados.  Não é o que se espera.  Livros, jornais e revistas circulam de acordo com as novas regras, com a expectativa de que assim será possível sonhar com a oficialização do nosso idioma na Organização das Nações Unidas, uma velha reivindicação estratégica, que se liga ao pedido para que tenhamos assento permanente no Conselho de Segurança da entidade.

                O curioso, nessa história toda, é que o Acordo contempla a maioria dos itens da Reforma de 1945, que recebemos de Portugal.  Não se mexe na forma de falar, garantindo-se a individualidade dos sotaques (prosódia).  A  quantidade de palavras mexidas é mínima (menos de 3% dos termos usuais) e a grita pode esconder interesses econômicos  disfarçados: o medo de o Brasil, com isso, procurar a conquista de novos mercados no exterior para os seus livros, por exemplo.

              O que há de concreto é a decisão política de simplificar o idioma de Camões, aliás, hoje mais fácil de entender pela semelhança com o  português que praticamos.  O ano de 2013 será marcado pela adoção plena, pelos 200 milhões de brasileiros, de uma grafia simplificadora, apesar dos embaraços com que ainda nos deparamos diante dos  hífens  traiçoeiros.  Mas isso é questão de tempo.

 

LIBERDADE DE EXPRESSÃO?

 

         Quem não conhece o assunto em profundidade pode ser levado a cometer equívocos de interpretação.  A Academia Brasileira de Letras, como faz há cinco anos, cede seus espaços gratuitamente ao filólogo Adauto Novaes para a  realização de seminários sobre o pensamento.  Dessa vez, o tema era 'Arte, sexo e pornografia', com a conferência do professor Jorge Coli, da Unicamp.

          Logo no começo, ele chamou a atenção de 'pessoas sensíveis' para a exibição de slides chocantes e ainda disse: 'Em geral, são proibidos para pessoas de menos de 18 anos.'  Alguns espectadores deixaram o teatro, carregando filhos menores de idade pelo braço.  O responsável pelo site da Academia, exibido publicamente no horário das 19 horas, ao ver as primeiras cenas do dito 'espetáculo', em que se incluía uma farta exibição de cenas indecentes, algumas delas protagonizadas pela conhecida Cicciolina, pediu permissão a um membro da diretoria da Casa de Machado de Assis para desligar o site, sem que fosse feita qualquer restrição à conferência propriamente dita, que correu assim até o fina

            Foi o bastante, no dia seguinte, para a ABL ser acusada de conservadora e responsável por uma censura à liberdade de expressão.  Aí o assunto passou a ser tratado, inclusive pela imprensa, de modo desfocado.   A ABL nunca agrediu a liberdade de expressão, em toda a sua existência.  Não há registro em sua história de qualquer ato nesse sentido, ao contrário, sempre se manifestou a favor da livre manifestação do pensamento, mesmo que por vezes não esteja inteiramente de acordo, o que é um direito seu, como entidade de natureza privada, com regras próprias que se encontram no seu Estatuto, que é o mesmo desde a fundação em 1897.

           O susto não foi a exibição do quadro 'A origem do mundo', do francês Gustavo Coubert, realizado em 1866 e bastante conhecido  pelos frequentadores do Museu d'Orsay em Paris, inclusive crianças.  O problema foi o que veio a seguir, inclusive cenas explícitas de felação, o que é proibido pelo Estatuto da Criança e do Adolescente e pelo  Código Brasileiro de Radiodifusão.  Se aquilo prosseguisse, o site poderia ser suspenso pelas autoridades e até casado.  Armou-se em cima disso uma polêmica, sendo a ABL acusada sucessivamente de censura a 'obras de arte', o que é um evidente exagero.  Obras de arte com a Cicciolina?

      A Academia Brasileira de Letras, de forma oportuna e moderada, fez uma nota pública, assinada pela presidente Ana Maria Machado, em que defendeu ardorosamente a liberdade de expressão, mas explicou que devia obediência, no site, à legislação de proteção à infância e adolescência.  Isso não foi o bastante para os organizadores da infausta conferência, que insistiram, já agora de modo covarde, na tese da censura.  Querem fazer média com as teses libertárias que se encontram em voga, mas com o uso de equipamentos alheios.  Fico pensando, como educador, se o professor Coli teria coragem de exibir isso para os seus alunos da Unicamp.  Certamente, sofreria uma advertência séria dos dirigentes da instituição.

 

 

CULTURA E EDUCAÇÃO VIVEM JUNTAS

 

                   É costume discutir, academicamente, quem vem primeiro: a cultura ou a educação.  A nosso ver, não há a menor dúvida de que  a educação é filha dileta da cultura. O que existe é o processo cultural, de que a educação faz parte, com a sua importância vital.  É relevante reconhecer o fenômeno, quando se focaliza a presença da mídia eletrônica em nossas vidas.

                  Os números são quase inacreditáveis. Milhões de brasileiros, de todos os quadrantes, viram entusiasmados as cenas da microssérie 'Gabriela', especialmente as que focalizavam a beleza nativa da atriz Juliana Paes.  Ao mesmo tempo, em outro horário, Carminha e Nina deram shows de interpretação, na virada fantástica da dinâmica da telenovela 'Avenida Brasil'.  O autor João Manuel Carneiro é um mestre, na arte que consagrou Janet Clair e Gilberto Braga.  Outros milhões de telespectadores ficaram de olhos grudados na telinha.  Como aconteceu com uma amiga: 'Cheguei a passar mal quando elas brigaram prá valer.'

                   Não há mais limites para o alcance da mídia eletrônica.  Na verdade, nem mais o céu é o limite, como se dizia antigamente, nos primórdios da TV aberta (há pouco mais de 50 anos).  Plataformas de filmes e séries, disponíveis em computadores, Ipad, Iphone e tablets têm mais de 5 milhões de potenciais usuários - e o número tende a crescer avassaladoramente.  A Globosat está lançando o canal Philos, dedicado a conteúdos eruditos, abrangendo arte, espetáculo, entrevista e debate, além de uma atração nacional em parceria com a Casa do Saber.  Nem a mais fértil imaginação poderia supor esse crescimento tão rápido, na oferta de atrações.

                 Aqui deve existir uma saudável junção de cultura e educação.  Esses mecanismos estão sendo disponibilizados para ampliar a oferta de possibilidades de uso, como se pode assinalar pela  existência comprovada, hoje em dia, de cerca de 1 milhão de estudantes via educação à distância no Brasil.  É outro número que cresce em progressão geométrica, aliás, como convém aos nossos anseios de potência econômica e  social.

                 Em conversa com o publicitário Nizan Guanaes, sentimos o seu entusiasmo com  o que nos vem dos Estados Unidos, onde Universidades como Harvard, MIT, Stanford, Princeton e Johns Hopkins, entre outras, promoverão cursos gratuitos a serem acompanhados de casa, via edxonline.  Só as duas primeiras instituições esperam, ainda este ano, educar mais de 1 bilhão de pessoas com os seus serviços digitais, que incluem a língua inglesa e outros conhecimentos igualmente úteis.

               Seria inteligente, de nossa parte, que a educação brasileira, com incríveis carências qualitativas, se valesse desses imensos potenciais para aperfeiçoar o que é oferecido aos nossos estudantes.  Os meios oficiais, às voltas com greves e mais greves, não demonstram grande vontade política de resolver o que é essencial para que tenhamos uma educação de Primeiro Mundo.  Isso pode eternizar o atraso, o que é profundamente lamentável.

 

 

ESTRANGEIRISMOS DE ESTRANGEIRISMOS


Arnaldo Niskier
da Academia Brasileira de Letras,
Presidente do CIEE/Rio e sócio
Correspondente Da Academia das
Ciências de Lisboa.

Quando estive em Tóquio, graças a um voo inaugural da saudosa Varig, espantei-me, logo no primeiro jantar, com o pedido de 'pão' ao garçon, feito por um nosso anfitrião. Pão, o que seria pão em japonês? O espanto maior é que era pão mesmo, palavra deixada entre os nipônicos pela passagem de jesuítas portugueses por
aquelas paragens.

Tal fato me remeteu para o livro 'Estrangeirismos', escrito por Cândido de Figueiredo, em 1902, em que ele afirmava que 'há estrangeirismos de estrangeirismos'. Enriquece a obra com vários exemplos, mostrando a mobilidade dos termos já àquela época. São suas palavras: 'Uns são imprescindíveis e fazem parte do idioma nacional; outros convenientes, e do seu discreto emprego podem advirvantagens; outros, ainda, são toleráveis, e procede louvavelmente quem os dispensa; e muitos há, muitíssimos até, que só se empregam por indesculpável ignorância ou por condenável desapreço à pureza da língua.'

Na época em que Cândido de Figueiredo, da Academia das Ciências de Lisboa, escreveu essa obra naturalmente os estrangeirismos mais citados eram os galicismos e os latinismos, por motivos óbvios. O latim foi a língua que com
mais abundante vocabulário contribuiu para a formação da linguagem portuguesa, especialmente quando nos referimos à norma culta.

É claro que, um século depois, com a incrível revolução científica e tecnológica, essa realidade modificou-se e, hoje, estamos muito mais às voltas com a íngua inglesa. Ainda assim, sem defender o seu emprego exagerado, principalmente quando há termos equivalentes na língua portuguesa. O modismo deve ser condenado,
até mesmo pelo seu caráter transitório.

Sobre o tema, não podemos deixar de referir ao tráfego de palavras, como revelam os estudos de Rosa Cunha-Henckel, quando se dedicou aos africanismos de origem tanto na obra de José Lins do Rego. Aí podem ser pinçadas palavras que hoje fazem parte do nosso cotidiano, de que são exemplos expressivos as seguintes
que selecionamos: mucama, cachimbo, caçula, cafuné, moqueca, quitanda, quilombo, senzala, tanga e zumbi, para só ficar nessas.

No trabalho lapidar de Cândido de Figueiredo, mais extensos, podemos colher um número maior de palavras importadas, mas que hoje fazem parte indissociável do nosso cotidiano. Vamos aos exemplos a nosso ver mais significativos, sem esgotar a matéria: abajur, alter ego, avalanche, bife, bibelô, cabaré, cassetete, deboche, descoberta, detalhe, drapejar, elite, emoção, flanar, grátis, golpe de vista,

hangar, idem, isolado, item, jockey, lavabo, legenda, madame, menu, morgue, perona grata, pic-nic, puré, quiproquó, repórter, restaurante, sanduíche, silhueta, sui generis, toalete, turbina, ultimatum, verve, viável, iate etc. Para aprofundar mais o exame dessas palavras, aconselha-se pesquisar no 'Vocabulário de palavras e frases latinas e
estrangeiras' do Dicionário de Moraes (nona edição).

MEMÓRIAS DE UM SOBREVIVENTE

                                                                        

               Adolpho Bloch era um otimista nato.  Vivia repetindo uma frase que se tornou célebre: 'Nossa riqueza é o otimismo.'  Foi um defensor entusiasmado da mudança da Capital para Brasília e foi esse fato que o ligou, como irmão, ao então presidente JK.  Sofreu muito com a sua cassação e jamais abandonou essa  amizade, como sou testemunha privilegiado.  Sabendo das dificuldades financeiras do ex-presidente, incumbiu-me por duas vezes de levar-lhe suprimentos financeiros (7 mil dólares por vez), para que pudesse ter vida tranquila em Nova Iorque e Paris.  Adolpho me dizia: 'Ele não foi acusado de ser a sétima fortuna do mundo?  Está sem dinheiro para viver lá fora.'  Essa demonstração de solidariedade sempre me emocionou.  Relembro esses fatos em meio a tantos outros, no livro que será agora lançado.

              É natural que as gerações mais novas não tenham qualquer noção do que representou para a comunicação brasileira o complexo industrial das Empresas Bloch.  Num dado período, nas décadas de 60 e 70, chegou a ser a mais importante gráfica do país, com máquinas alemãs e italianas moderníssimas.  A sua rotogravura Albertina só faltava falar.  Imprimia em cores a uma altíssima velocidade.  Foi assim que a Manchete tornou-se a mais importante revista semanal do Brasil, arrancando admiração até de especialistas estrangeiros.

            No ano 2.000, depois de uma série de peripécias administrativas e judiciais, envolvendo inclusive as emissoras de rádio e de televisão, tudo veio por água abaixo.  A firma foi fechada, deixando quase 3 mil profissionais na rua.  Até hoje, alguns deles lutam para receber os seus direitos.  O lindo prédio (na verdade, eram três geminados), na rua do Russell, foi vendido em leilão e, depois de retrofitado, abrigará uma série de empresas petrolíferas.  Será que o arquiteto Oscar Niemeyer, quando bolou aquilo tudo, ao lado do sonhador Adolpho Bloch, terá um dia pensado que o seu projeto teria esse destino?

             Depois de 12 anos, para as gerações mais maduras, resta a saudade daqueles tempos.  Eram 12 revistas de atualidades, além da Manchete, e também impecáveis serviços gráficos.  Sou suspeito para falar das estações de rádio, por ter sido pioneiro na construção da sua rede, a partir da Rádio Federal, hoje ainda a Rádio Manchete.  E quem, nessa idade, não se lembra das enormes expectativas da Rede Manchete de Televisão, com sua programação 'para o ano 2.000' e telenovelas que chegaram a balançar a liderança da Rede Globo.  Foi assim com o 'Pantanal' e 'Dona Beija'.  Aliás, aconteceu o mesmo com as belíssimas coberturas de Carnaval, quando a Manchete dava verdadeiros shows de jornalismo televisivo.

        O meu vínculo com a empresa nasceu em outubro de 1955, quando fui levado pela família Rodrigues (Augusto, Paulo e Nelson) para trabalhar, garoto ainda, na Manchete Esportiva.  Lá fiquei cerca de 37 anos, em que acumulei notáveis experiências, especialmente com a figura singular de Adolpho Bloch.  Ele era um líder, com todas as qualidades e defeitos de um ser genial.  Capaz de gestos de muita grandeza, como demonstrou no apoio que deu a JK, depois da injusta  cassação sofrida, tinha um olho clínico invejável para as artes gráficas (isso herdado do seu pai, Joseph) e uma coragem quase irresponsável para realizar investimentos numa economia inflacionária.  Quando resolveu construir os prédios da Glória, banqueiros amigos o desaconselharam, mas Adolpho preferiu seguir a sua incomparável intuição.  'Não tenho nada a perder.  Quando cheguei ao Brasil, em 1922, só tinha trazido da Rússia um pilão da minha família.'

             Fui instado por muitos amigos a escrever sobre essa experiência vivida e sofrida.  Demorei um pouco a tomar coragem, mas finalmente fiz o dever de casa.  Aí  está o livro 'Memórias de um sobrevivente', da Editora Nova Fronteira.  Se tem um mérito é o de ser fiel aos fatos passados.  A experiência da Manchete agora é história.

 

O ESTILO PECULIAR DE JORGE AMADO

                                                                         

           Numa das sessões da Academia Brasileira de Letras, na hora do chá, tive uma boa conversa com o escritor Jorge Amado, que conhecia desde os meus tempos de Manchete.  Ele costumava ceder à revista parte dos originais dos seus próximos livros, o que sempre se constituía em furos de reportagem.  Na ABL, o tema  era a televisão - e  se adaptações feitas de obras literárias desfiguravam ou não o seu sentido.  Ele simplificou o seu pensamento: 'Cedo os direitos, mediante remuneração, e depois não quero nem ver o que fazem dele.'  É curioso que Rachel  de Queiroz, presente no papo, tinha esse mesmo pensamento.  Hoje, quando a Gabriela volta a fazer sucesso, na TV Globo, com uma inspirada adaptação de Walcyr Carrasco, ele mesmo um grande escritor, o assunto volta à baila, na recordação do convívio  acadêmico.

           Como se desenvolveu o estilo peculiar de Jorge Amado? O que o teria influenciado? Que escritores foram importantes para que ele criasse um jeito original de escrever que tanto cativou os leitores brasileiros e estrangeiros?

           As respostas não são tão simples, já que o enquadramento da obra de Jorge Amado dentro de uma linha de pensamento baseada em estudos estilísticos deve ser uma tarefa  trabalhosa.  Basta observar que o período em que surge Jorge Amado, logo após a fase de contestação, de polêmicas e de busca novos caminhos, iniciado em 1922, é marcado por 'extraordinária floração e esplendor', como bem definiu Afrânio Coutinho.  Por isso se torna difícil tentar compreender o estilo de Jorge Amado através de interpretações sociológicas ou teorias afins: corre-se o risco de não se ter a exata definição da arte do escritor baiano.  Também não fará sucesso aquele que tentar fazer um paralelo entre as obras e os fatos históricos ocorridos nos períodos em que foram produzidas.  Esses estudos críticos não levam em conta  que o autor, com sua liberdade de criação, com sua licença poética, muitas vezes preocupado com a sua 'cria', está além de fundamentações teóricas ou conceitos literários.  Quer apenas desenvolver o seu romance, o seu conto, a sua poesia ou a sua crônica do jeito que a sua mente naquele momento está se propondo, numa viagem muito pessoal e intimista.  Ele criou o 'estilo  jorgeamadiano', muito pessoal, e foi muito feliz, legando ao Brasil obras inesquecíveis.

         Tudo começou, em 1931, com o lançamento do primeiro livro,  O país do carnaval.  As palavras escritas por Jorge Amado, naquela obra, já demonstravam que o escritor baiano seria uma voz polêmica na literatura brasileira. Vejamos:

'Entre o azul do céu e o verde do mar, o navio ruma o verde-amarelo pátrio.  Três horas da tarde.  Ar parado.  Calor.  No tombadilho, entre franceses, ingleses, argentinos e ianques está todo o Brasil (Evoé, Carnaval).  Fazendeiros ricos de volta da Europa, onde correram  igrejas e museus.  Diplomatas a dar ideia de manequins de uma casa de modas masculinas... Políticos imbecis e gordos, suas magras e imbecis filhas e seus imbecis filhos doutores.  Lá no fundo, namorando o mistério das águas, uma francesa linda como as coisas mais lindas, aventureira viajada, que dizia conhecer todos os países e todas as raças,

      Editado pelo poeta Augusto Frederico Schmidt, o livro foi recebido por Rachel de Queiroz, sua grande amiga, com grande fervor.  Esta obra  guarda um fato histórico, triste e lamentável: foi queimado pela polícia do Estado Novo, em Salvador, em 1937, por Jorge Amado ter sido considerado um subversivo.

 

LIVRO IMPRESSO X LIVRO DIGITAL

                                                                            

       Com mais de 700 inscrições, o Congresso Rio de Educação, realizado no Hotel Sofitel, foi um sucesso completo, para alegria do seu inspirador, o professor Victor Notrica, presidente do Sindicato das Escolas Particulares (Sinepe).  Tive o ensejo de coordenar a primeira das suas mesas, que tratou de um tema atualíssimo: 'Do livro de papel ao livro digital: uma reflexão sobre o exercício da leitura'.

        O primeiro orador foi o engenheiro Sílvio Meira, da Universidade Federal de Pernambuco.  Munido de um poderoso Fujitsu, encantou a plateia, dizendo coisas que nos fizeram pensar: 'O principal inimigo do livro impresso não é livro digital, mas os games e as redes sociais que faturam hoje bilhões de dólares.'

       Mostrou que a procura por games dobrou de 2011 para cá, chegando a 142 horas por ano por pessoa.  Afirmou ser decrescente o faturamento em livros impressos e que os digitais constituem um instrumento precioso de sustentação do fenômeno da leitura.  O programa que mais cresce é o chamado 'Angry birds', com 30 milhões de jogadores por dia e  o Facebook é um ambiente com 1 bilhão de usuários.  São números extraordinários, que tendem a crescer quando for lançado, até o Natal, o Kindle da Amazon, um sistema inteiro que irá balançar o livro tradicional.  Não terá propriedade intelectual e entrará livremente nas bibliotecas das escolas.  A previsão de Sílvio Meira, que  é doutor em ciência da computação, é de que muitas livrarias, a partir daí, poderão quebrar, embora os livros de conteúdos, com funcionalidade, devam ter uma grande sobrevida.

      Depois veio a fala do escritor Muniz Sodré, que foi presidente da Biblioteca Nacional.  Especialista em comunicação, com domínio de vários idiomas, demonstrou que 'do impresso nasceu uma nova economia do tempo de aprendizagem'.  Quando a oralidade era predominante, não se precisava do livro para pensar e debater.  Passou pelo conceito de hipertexto (é a complementaridade dos textos) e classificou a internet como a realização tecnológica do intertexto, 'onde o leitor  é incitado o tempo todo à livre navegação dos bytes, ao veloz nomadismo do hipertexto, sem contas a prestar ao autor.'

    Para ele, não se está assistindo ao fim da forma-livro, mas à sua continuidade em outro suporte material, como assinala Umberto Eco, para quem o livro é uma invenção definitiva.  Com o digital abrem-se outras possibilidades para a interatividade.

   Muniz defende a existência de uma 'ciberliteratura', criticou os nossos escassos índices de leitura e revelou a existência, no Brasil, de um descompasso pedagógico frente à ascensão dos novos modos de ler, que incidem justamente sobre as práticas juvenis de interpretação de textos no âmbito de escrita digital.  A seguir a plateia, muito mobilizada, discutiu as questões levantadas.  Ficou no ar a convicção de que o livro não morrerá, mas ganhará novos e ampliados contornos.

 

O PRÍNCIPE DANILO

               

                         No Brasil, tivemos um príncipe Danilo no futebol.   Cheguei a vê-lo atuar pelo América, pelo Vasco da Gama e pela seleção brasileira.  De estilo inconfundível, jogava na posição que, à época, se chamava de centro-médio.  Armava as jogadas com rara elegância.  Era o Danilo Alvim.

                      Na vida cultural brasileira, hoje, temos um outro príncipe Danilo, com o sobrenome de Santos Miranda.  Não joga futebol, mas é um primoroso armador de ações, todas elas revestidas de sucesso no Sesc de São Paulo, onde atua há mais de 30 anos, nas funções de diretor regional da instituição, íntimo colaborador do presidente Abram Szajman.

                         Danilo nasceu em Campos dos Goytacazes(RJ) e parecia destinado à carreira religiosa.  Queria ser jesuíta.  Mas os fados o levaram a São Paulo.  Como professor que era, acabou entrando por concurso para o Sesc, onde faz uma lindíssima carreira de executivo.   Dirige com invulgar competência as 33 unidades do Sesc/SP, animando suas atrações artísticas e os diversos serviços de saúde, nutrição e educação ambiental.  Alia os cuidados culturais, como vimos no fabuloso Sesc Pompéia, com atividades físicas, de lazer.

                        Não é por acaso que o governo federal, há tempos, quis atrapalhar a vida do Sistema S, sequestrando os seus recursos, que não são públicos, mas fruto da contribuição de empresários e trabalhadores brasileiros.  É uma presença crescente, em nossa economia, aumentado cerca de 10% do ano, na última década.  Tudo isso é resultado de um trabalho inteligente e estrategicamente adequado.  Por isso, concordamos com o que nos disse Danilo, em encontro recente: 'Trabalhamos num processo de educação informal, educação complementar, que  é contínua.'  Como, aliás, recomendou a  Unesco, em sua Conferência Internacional de Educação.

                        O professor Danilo, hoje um paulista de quatrocentos anos, estimulado pela  amizade e a afinidade com os propósitos de Abram Szajman, continua à procura de terrenos, onde possa expandir a ação do Sesc.  Está de olho especialmente na Zona Leste da capital e em algumas cidades do interior paulista, onde anotou carências culturais que merecem cuidados por parte da entidade, que hoje tem por sede a antiga fábrica de tecelagem do Moinho Santista, no bairro de Belenzinho.  Ali ele desenvolve o seu comando, com a  prata da casa, considerando-se por isso mesmo 'um homem feliz'.

                 O objetivo desse executivo especial é melhorar as condições de vida dos trabalhadores do setor terciário de São Paulo, como, aliás, foi previsto na Carta da Paz Social, assinada em Teresópolis, nos idos de 1946, quando se reuniu a Conferência Nacional das Classes Produtoras, para criar uma instituição benemérita, como é o Serviço Social do Comércio.  De lá para cá, só há motivos de orgulho.  Perguntem aos frequentadores das unidades em pleno funcionamento se estão contentes com o que está sendo realizado.  A resposta, como vimos recentemente no ABC paulista, é amplamente favorável.

 

Entropia no Sistema

  Uma das mais famosas expressões do educador Anísio Teixeira hoje deve ser reavivada: "O ensino médio brasileiro é um ensino órfão."  Ele reclamava, naturalmente, da pouca importância dada pelas autoridades e até mesmo por um grande número de educadores para o que deveria ser, na concepção dele, uma educação intermediária renovada.

  Se há um grau de ensino, no Brasil, que anda rateando há  muito tempo é o de  nível médio.  Assinalam-se feitos no ensino fundamental (mais de quantidade do que de qualidade), nossa pós-graduação é digna de ombrear-se com a de países industrializados, há boas perspectivas de avanços na educação infantil, mas o ensino médio representa uma entropia no sistema.  Agora mesmo, há estranheza quanto ao número de reprovados em geral e também aos que abandonam os estudos, desinteressados do seu futuro profissional.  Segundo dados oficiais, o índice de repetição em 2011 foi de 13,1% (é o pior desde 1999).


  As causas? Podem ser variadas, mas algumas são pontuais.  Por exemplo, o excesso de matérias nos confusos currículos existentes.  Em nenhum lugar do mundo desenvolvido há tanta diversificação.  O Conselho Nacional de Educação colabora para aumentar a confusão, quando sugere a incorporação demais Sociologia e Filosofia ao currículo.  Não havia disponibilidade de tempos vagos para que isso acontecesse.  Em algumas escolas públicas, essas duas matérias surgiram com a redução de aulas de Língua Portuguesa e Matemática.  É claro que os resultados só poderiam ser desastrosos.


  Os problemas do ensino médio se agravam em virtude da fase de transição por que passam os jovens, além da natural imaturidade proveniente da adolescência.  Some-se a isso o desinteresse dos pais, na maioria dos casos, e estão criadas as condições para justificar o fenômeno, a que se deve agregar a falta de um bom programa de bolsas de estudo para jovens de baixa renda.  É essencial criar um projeto seguro de financiamento  estudantil, no ensino médio, como existe o Prouni para o ensino superior.  Quem sabe, aproveitando a estrutura nacional dos Centros de Integração Empresa-Escola, que nos seus quase 50 anos de vida promoveram quase 10 milhões de estágios para os nossos jovens.  É  preciso sempre mais.


  A Universidade Aberta do Brasil (UAB) já possui 639 polos de educação pública à distância, aproximando-se de 900 mil alunos.  É um avanço considerável e a intenção da presidente Dilma Rousseff de ampliar o número dos atuais 38 Institutos Federais de Educação, Ciência e Tecnologia tem o mais amplo apoio da sociedade.  Mas isso tudo é para quando? O ritmo dessas obras não é dos mais animadores. Já surgiu alguém fazendo graça com o problema que  é sério: sugeriu-se entregar a coordenação das obras à Fifa.  Ela sabe apertar o Governo.


  Com Enem ou sem Enem, queremos um ensino médio mais inteligente, preparando os nossos jovens para a sociedade do conhecimento e da inovação.  Deseja-se dar um salto no número de universitários brasileiros, hoje na casa dos 8 milhões.  Isso não será alcançado com um ensino médio ultrapassado e desinteressante.